Em homenagem a meu amigo Ivan, que é fã de Ito Ogami, como eu.

Mais de uma vez, repeti, para me convencer ou para convencer minha ex-namorada, que as pessoas não mudam tanto assim. Era o argumento para explicar por que éramos inviáveis. Tive que mudar, profundamente, para deixar de acreditar nisso e acreditar mais no ser humano.
As pessoas mudam. Por vezes, lentamente, ao longo da vida. Por vezes, tentam preservar coerência e petrificam tudo, inclusive os traços negativos de caráter. Por vezes, as pessoas criam estereótipos de si mesmos e se apegam a eles, como quem precisa de uma identidade, qualquer identidade. Apesar disso, as pessoas mudam.
Há duas formas como as pessoas mudam que são as mais comuns. A primeira, em traumas ou emoções fortes. A morte muda as pessoas, seja de seres amados, seja por terem estado perto demais da morte. A paternidade e a maternidade mudam as pessoas, que jamais, antes, praticaram o amor incondicional e, de repente, amam um ser que nem as reconhece, de início. O casamento muda as pessoas, sobretudo os homens. A morte da minha tia, a Lia, me tornou mais afetivo, para o resto de minha vida.
A segunda forma é mais lenta, em jornadas de conhecimento interior e de resolução de contradições internas. São como o casulo para a lagarta. Quem está no casulo, na escuridão cercado de fios de seda, não percebe a luz lá fora. Por vezes, nem percebe que está mudando. São como a borboleta que esquece que foi lagarta. Na escuridão, é normal ficar confuso, pois o processo é lento e cheio de mudanças que a lagarta não entende direito, mas faz força para entender. Eu passei por isso. Meu amigo Ivan passa por isso.
Para ambos, foi o amadurecimento que leva a aceitar e querer viver relacionamentos estáveis, assumir responsabilidades, não fugir dos planos, nem do futuro. Alguns homens passam por isso. Outros casam sem deixar de pensar como solteiros. Normalmente, acabam separados.
A borboleta se transforma no escuro. A borboleta é símbolo de transformação. Mas só quando se vê borboleta, entende o casulo e percebe a escuridão como um processo, não como a condição da vida. Ou seja, só quando, depois de uma longa jornada, nos vemos diferentes do que éramos, percebemos que estávamos trilhando um caminho, aprendendo algo, amadurecendo.
Tateei muito no escuro, mas agora me sinto pronto. Já tive medo do vento e, como a lagarta, me apeguei a uma folha, um caule, um tronco. Agora, quando o vento bater, vou com ele. Hoje, acredito que as pessoas mudam. A borboleta vê muito mais que a lagarta.

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