Há certos filmes no cinema que parecem falar de algo, por vezes algo simples, algo banal. Alguns, como 007, são isso mesmo, são só o que aparentam na superfície. Outros não. Shyamalan é um diretor especialista nisto. Seus filmes muitas vezes são mal recebidos pelo público, por que são lidos de uma forma, quando são outra coisa, completamente diferente.
Dele, apenas Sexto Sentido agradou o público, por que a aparência do filme, em si, satisfaz. Quem não se impressiona com o final, quando o personagem de Bruce Willis se descobre, ele, o espírito, que não se percebia morto, apesar de tantos sinais palpáveis disso? Sexto Sentido é um filme sobre espíritos? Não. Usa deles, é verdade, para falar de outra coisa: autoconhecimento. A ignorância de si do personagem principal é tal que a audiência também ignora sua condição. Ele, psicólogo, deve conhecer os outros, mas não conhece a si mesmo.
Shyamalan segue pela mesma linha, parecendo falar de uma coisa, mas falando de outra em Sinais, com Mel Gibson. Parece ser um filme sobre ET´s, sobre a invasão do planeta, anunciada por sinais nas lavouras de um pastor descrente. Os “sinais” do título seriam isso. Outro erro. Os sinais são os sinais de Deus. O personagem principal é um pastor que perdeu a fé, por causa da morte da sua esposa. Ele se sente abandonado por Deus ou desconfia que Deus não exista. Por isso, não entende as últimas palavras da esposa nos seus braços. Ele não vê os sinais de Deus, até uma das últimas cenas, quando um ET invade sua casa e pega seu filho. Neste momento, as palavras finais da esposa fazem sentido. Sinais é, acima de tudo, um filme sobre fé. Sobre como a falta de fé cega as pessoas para os sinais divinos.
E, por fim, A Vila, do mesmo diretor, vai pelo mesmo caminho. Parece um suspense, um filme ao estilo da superfície de Sexto Sentido. Quando o monstro que cerca a vila se revela é uma decepção. Como suspense, o filme é um fracasso. Mas nem suspense ele é. É um drama, sobre isolamento, sobre a preservação de valores morais. É uma espécie de antídoto contra as pragas do nosso tempo. Pode ser, como afirmaram alguns críticos, metáfora de um Estados Unidos que ignora o externo. Esta interpretação me parece mais forçada.
Sixteen Blocks, em cartaz atualmente, faz o mesmo. Quem o ler como uma aventura apenas vai se decepcionar com o filme. Na verdade, ele conta como um policial, escoltando um prisioneiro que deve depor no tribunal, muda de postura, se arrepende de coisas que fez, em menos de duas horas. O filme fala sobre a possibilidade do ser humano mudar. Sua mensagem final é clara. Quem não entender isso, não entende o comportamento do personagem principal, interpretado por um Bruce Willis barrigudo.
Este eixo central dos filmes é o que chamamos de argumento. É o eixo de ação. Às vezes, aqueles resumos dos jornais explicam direitinho o argumento de um filme. Mas, na maioria dos casos, ficam na casca. Acreditem: Sixteen Blocks quer dizer, para todos, que um ser humano muda, muito. Mesmo que para isso tenha que passar por experiências dolorosas ou intensas.
Chuck Berry e Barry White são exemplos disso. Eu sou outro.

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