Certa noite, um alado bateu na janela, desesperado, como se quisesse entrar. Era um filhote de canário, desnorteado. Por zelo, abri a janela, o deixei entrar, o apanhei e o coloquei numa caixa de papelão. Pretendia soltá-lo, no dia seguinte. Não imagino a hipótese de prender um pássaro, para meu deleite, de encher-lhe a gaiola de comida, água e toda sorte de mimos que poderia chamar de amor. Tirar-lhe a liberdade.
Como o pássaro, não sei porque uma mulher queira entrar na minha vida. Provavelmente porque, como o filhote de canário, não veja os obstáculos. Por vezes, abro a porta. As pessoas, vez sim vez não, abrem a porta. Depois, enjaulam o pássaro. Eu não.
A isso que chamam de amor pelo outro, paixão, ou termos intercambiáveis, eu chamo de egoísmo, amor a si mesmo. A expressão externa mais evidente deste comportamento é o ciúme possessivo, equivalente perfeito ao amor que se sente pelo pássaro na gaiola.
Na gaiola, os pássaros são objeto de um amor terno e honesto. As pessoas juram que amam sinceramente, mas a primeira coisa que fazem com o objeto de seu amor é tirar-lhe um dos bens mais valiosos: a liberdade. Isso gera brigas violentas e confusões trágicas. Amar, na concepção atual, é trocar a própria liberdade pela liberdade do outro. É uma noção estranha, em franca solidificação. A juventude do século XXI, esta mesma que resgata o movimento pelo casamento virgem e usa alianças de compromisso muito mais que seus pais, é o agente ou objeto de uma contra-revolução nos costumes. Enquanto a contracultura afirmou o direito do pássaro voar, esta juventude pratica o amor via jaula. Nossos jovens não entenderam nada. Ou vivem, como é típico nestes dias, presos ao presente, como se tudo fosse como é e sempre tenha sido assim.
A posse sobre o outro é profundamente masculina. Os homens, pelos séculos e séculos, têm tratado as mulheres como objeto de posse, normalmente sem oferecer nenhuma contrapartida. O mundo mudou. As mulheres reivindicam seu direito. Por isso, são veementes em afirmar seu direito à posse sobre os homens. Elas não lutam pela própria liberdade, mas pelo direito de possuir os homens. Os movimentos de mulheres dos anos 60 estão liquidados. Elas querem direito iguais e, assim, reafirmam e reforçam um comportamento, no limite, desumanizador.
Pássaro não são seres humanos. Se tiverem opção, voam, nunca ficam. Pessoas ficam, por escolha. Não possuímos ninguém. Elas escolhem permanecer ao nosso lado, e escolhemos ficar com elas. Podemos resolver trilhar outro caminho quando quisermos. Por isso, o outro deve nos respeitar. Mas somos livres, tragicamente livres. Isso torna a vida muito incerta, mas é indispensável.
É verdade que é necessário cuidar de quem amamos, deixar claro que queremos que fique, dar-lhe conforto afetivo. Permanecer ao lado dele(a), mesmo nos piores momentos e dar-lhe carinho, quando necessário. Saber amar, sem oprimir e sem parecer desleixado é uma arte, muito difícil, que só os anos ensinam.
Agi assim com o pássaro. Queria, por egoísmo e, talvez, por amor, que ele ficasse. Por isso, cuidei dele. Mas, no dia seguinte, levei o pequeno canário para fora e, perante o sol, abri as mãos, doendo por dentro. Para minha surpresa, ele ficou ali, por quase cinco segundos. Tive a esperança de que ele tivesse escolhido ficar. Depois, voou. Talvez eu perca muitos assim. Mas não posso exigir nada, apenas amar e esperar ser retribuído. Não os possuo. Se os amo, abro as mãos. Se o pássaro entendesse destas coisas, poderia voltar tranqüilo, pois jamais lhe negaria seu direito mais básico de voar. Mas, como os jovens, ele não entende destas coisas de escolha e liberdade.

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