Somos senhores das máquinas. Somos senhores do orkut. Lá, somos livres e pintamos, em cores vivas, a imagem do que pensamos que somos ou do que gostaríamos de ser. Todo mundo é bacana, descolado, bem-humorado, in no orkut. É uma fábula do mundo em conexão, da multiplicação dos mecanismos de exposição individual, da proliferação de personalidades virtuais. É o contrário da sabedoria oriental milenar: o sábio fala; o mais sábio, cala.
No orkut não. Por que não contar tudo de bom que somos e até o que não somos. Por que não colher os frutos, se fazem isso todos os dias na TV, nas exaltações das virtudes dos artistas. Se eles podem, eu também.
É um traço da nossa sociedade, sociedade da exposição. Ou do espetáculo, para os que gostam de Guy Debord. Os outros podem te definir de um jeito diferente do que você imagina. Para que ouvir críticas, se elas podem afetar sua auto-imagem, te fazer ver defeitos e te fazer melhor do que você é. Melhor ser um babaca feliz.
Há os que sabem bem disso e buscam, mesmo numa máquina de exposição, se preservar, não se entregar. Lutam contra o orkut. Há, no limite, os que cometem orkuticídio e matam seu perfil. Há os que apagam os scraps e se protegem. Há formas de dar um uso mais decente ao dispositivo.
O maravilhoso mundo do orkut é assim por que é. A máquina tem seus limites, tem suas intenções, como ensina Vilém Flusser. A máquina tem seu programa. E o programa limita nossa ação, nossa liberdade. Não somos senhores do orkut. O orkut, de certa forma, é nosso senhor. Só fazemos o que ele nos permite fazer. Se podemos criar um perfil muito pessoal, este perfil está limitado pelo programa da máquina. Confrontamos nossa intenção com a intenção do orkut. Fazemos, com a máquina, apenas o que a máquina está programada para fazer.
Definimos o que somos por comunidades, amigos, scraps, depoimentos, os dispositivos do programa do orkut. Tudo isso configura um mundo maravilhoso, onde o elogio, fruto da falsidade típica da nossa cultura, é regra. E ainda temos o poder de apagar tudo que nos desagrade. Mas as pessoas normalmente falam bem de nós, ressaltam o superficial, elogiam a casca do que somos. Vi muito poucos depoimentos que dissessem algo relevante sobre alguém. Há, evidente, alguns assim, mas são raros. De resto, são apenas gestos, que expressam mais a popularidade virtual que a popularidade real ou qualquer coisa que defina, de verdade, as pessoas.
A máquina conduz a isso, aos elogios da superfície. Quem se baseia no orkut para definir alguém deve fazê-lo como Freud procedia com as fissuras do inconsciente. São indícios reais, mas é preciso entendê-los mais a fundo para saber o que significam.
Minha hipótese é que o maravilhoso mundo do orkut é tão raso quanto um pires. Repete outros traços da sociedade rasa em que vivemos. Repete a superficialidade dos shoppings, da afirmação de si pelas roupas que se veste (pelo preço, sobretudo), a superficialidade das amizades de balada e dos amores noturnos, quando as pessoas são mais prêmios que pessoas.
Quem sabe disso pode viver bem no orkut, sem se tornar escravo da máquina. Quem acredita nestes índices falsos de popularidade e acredita que tudo significa algo ou vai ter que arranjar um jeito de viver na falsidade para sempre (como as madames da alta sociedade) ou vai descobrir, em breve, que isso importa menos.
O trágico do mundo do orkut é que, em alguns casos, ele produz demência, ele se apresenta mesmo como uma fissura do inconsciente que revela uma doença psicossocial. Há quem adoeça seriamente. Pobres diabos. Pobres crianças. A vida real é muito diferente. E não é perfeita. É cheia de obstáculos, exige muito mais para se conquistar respeito. Exige saber que as pessoas que te amam são as que te criticam, não as que te elogiam. Por que, de longe, vemos só virtudes. Só quem está perto vê os limites de alguém. E só quem te ama mesmo quer te ver melhor. Os demais, não. Até por que eles podem te trocar facilmente, não precisam te entender nem te ajudar a superar seus problemas.
Pobres filhos do orkut. Vivem na pior prisão, por que é uma doce prisão onde parecemos mandar. Mas a máquina só faz o que está programada para fazer. A prisão só parece um reino de liberdade para ser mais eficiente, para obter uma doce submissão, um aprisionamento voluntário.
O orkut é um Truman Show. Truman era feliz. Ignorante e feliz.

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