Este é o primeiro conto que escrevi com um personagem tigre. Nem lembro, hoje, por que fiz isso. Mas gostei da idéia.

Depois perdi a data precisa e tudo ficou enevoado. Mas a sensação da sua chegada não esqueço. Bateu leve seu toc, toquear. Duas vezes. Abri sem pressa. Polido:
– Pois não?
Ele nada respondeu, nem sequer disse seu nome. Não sei como quase desde sempre eu soube como o chamar. Me olhou com seus olhos profundos de tigre e unhas afiadas e dentes pontiadudos. Aconchegou-se em todos os recôncavos da casa, pelas almofadas da sala, nas brechas entre o fogão e a pia, no vão que separa a cama da parede, onde se escondem os monstros na infância. Ocupou, por fim, todos os espaços, cada interstício da minha vida. Não havia lugar para onde olhar sem o ver, com os vidrinhos que trouxe com uns líquidos coloridos. Comecei a ter a sensação de que não olhava mais seus olhos, mas, não raras vezes, através deles.
Eu o chamava de Senhor Devaneio. Tentei perguntas. Nunca me deu respostas. Não lembro nem mesmo de ter dirigido a voz para mim. Silente, fazia matéria de cada palavra que eu dizia, de cada pensamento ou desejo. Tudo misturava, na cozinha, com os líquidos coloridos que trouxe dentro de uns vidrinhos.
E foi estraçalhando, um a um, todos os móveis da casa. Pintou as paredes com cores mutantes. Entrelaçou hoje e amanhã. Levou-me, mas eu não sei bem para onde. Um dia, bem nos primeiros dias, olhei as paredes coloridas e murmurei teu nome:
– Drieli!
Acho que ele ouviu. Jogou a mesinha da sala pela janela. Revirou minhas gavetas e todas as minhas cartas, até as dos envelopes especiais. Cortou minhas reproduções de Van Gogh e Picasso. Quebrou a cama e pôs o colchão na sala. Enrolou o tapete de lã de carneiro. Me encharcou de perfume, de vinhos… Trocou as caixinhas dos meus CD’s. Alterou a ordem dos meus livros. Desmarcou os compromissos da minha agenda.
Zanguei, olhei dentro dos seus olhos com meus olhos de tigre. Senhor Devaneio fingiu que estava tudo bem e me sentou na minha poltrona de leitura, toda arranhada, virada para a parede. Desde que ele ouviu seu nome, por algum motivo, passou a destruir toda a materialidade da minha vida e a descolorir o preto e o branco. Eu também não liguei mais para a casa. Sempre fugia pelas janelas e voltava, amedrontado, pela porta. Ele sempre demorava a abrir.
Um dia, por fim, a porta estava aberta. Pelo vão, vi a casa em ordem (como eu gostava antes de esquecer). Todos os móveis no lugar. Na cozinha, só um resto de passado transbordado.
Senhor Devaneio tinha ido embora. Desde então, não consigo lembrar seu nome, Drieli.

8/02/99

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